
Ano: 2005
Gênero: Romance, Contemporâneo, Distopia
Outros do mesmo autor: O gigante Enterrado, Os Inconsolados, Quando Eramos Órfãos
Editora: Gradiva
Classificação: 7/10
Resumo/ Review:
Após Gigante Enterrado, fiquei rendida
à forma como o autor expõe questões intrínsecas à vida, através de
figuras de estilo como a personificação e a metafora. Por sua vez, Nunca
Me Deixes retrata um dos problemas mais convencionais que enfrentamos
como espécies de uma forma bastante misteriosa. O tema central é
lentamente desvendado capítulo a capítulo, conforme a infância da
personagem principal é relembrada, e até se descobrir o destino das
crianças de Hailsham, o leitor tem a oportunidade de especular várias
conjecturas. A escrita é bastante simples, no entanto o que distingue a
escrita de Kazuo Ishiguro neste romance é a profundidade que este dá às
personagens e a construção em várias camadas do romance, que desencadeia
múltiplas impressões e emoções.
O livro é narrado na primeira pessoa,
por Kathy uma “ajudante” de 31 anos que cuida dos “doadores”, papeis
estes que desde logo intrigam o leitor, quando apresentados. Esta relata
a sua infância em Hailsham e o desenvolvimento das suas relações de
amizade com Ruth e Tommy. As crianças de Hailsham são retratadas como
estudantes especiais, mas o que terão mesmo de especial?
Os estudantes de Hailsham são nada
mais nada menos que clones, que existem apenas com único propósito, doar
órgãos quando necessário, até que completem o “ciclo”. Assim, Kazuo
Ishiguro pretende com esta obra, sublinhar que com o avanço tecnológico
surge grandes responsabilidades. Mesmo que a clonagem seja possível,
será eticamente correto? Aproveita ainda a ficção científica para
ilustrar a vida humana quotidiana, explorando questões sobre a alma
humana, a sexualidade, a criatividade e a inocência da infância,
sugerindo que todos nós somos de certa forma clones, imitadores que
adquirimos maneirismos provenientes do cinema, televisão e da própria
sociedade.
A narrativa divide-se em 3 tempos
distintos. Enquanto a instituição Hailsham foca-se na saúde e na
valorização da arte, nomeadamente de desenhos e poemas, a Herdade
representa a fase de transição entre infância e a idade adulta, onde
entram em contacto com clones criados noutras instituições, cujas as
condições diferem das de Hailsham. Mais tarde, antes de se tornarem
doadores, passam a ser ajudantes, que cuidam dos que já se encontram no
processo de doar.
A relação de Kathy, Ruth e Tommy
deteoriza-se na Herdade. Depois de descobrirem os rumores referentes à
possibilidade de poderem ter um adiamento das doações, Tommy agarra-se a
essa nova esperança, apercebendo-se agora da importância dos desenhos,
que anteriormente desvalorizou em Hailsham, e recomeça a trabalhar no
sentido de obter o tal adiamento. Aqui Kazuo Ishiguro, demonstra que as
pessoas acreditam naquilo que querem acreditar, e como a esperança pode
moldar o julgamento de um indivíduo. Tommy partilha primeiramente esta
sua teoria com Kathy, e Ruth quando descobre fica com ciúmes, pelo que
ridiculariza os desenhos dele, e afirma que Kathy também os considera
insignificantes. É irónico que a única ação relevante de Kathy até ao
momento foi optar por iniciar o curso para se tornar ajudante, como
forma de evitar resolver os problemas com Ruth e Tommy, destacando a sua
atitude passiva e a sua incapacidade de tomar decisões, que sempre
tivera ao longo da narrativa.
Perto do final, os 3 amigos visitam um
barco abandonado, que pode ser interpretado como o símbolo dos seus
passados partilhados. Ou seja, assim como a antiga escola, o barco
fornece um pequeno refúgio ao oceano (mundo), onde estariam perdidos à
mercê da maré. E, assim como o barco poderá ser destruído por uma
tempestade, Hailsham também facilmente perdeu os financiamentos e
encerrou, com a mudança da opinião pública. É apenas quando confrontam
esta estrutura simbólica do passado que finalmente, Kathy, Ruth e Tommy
discutem sobre a questão de serem doadores, tema este que sempre
evitaram abordar. Eles sempre viveram controlados e com o destino
traçado, e sempre souberam dessa triste realidade, todavia todos
pretendiam não vê-la. Isto porque a partir do momento em que aceitassem
esta conjectura, teriam de aceitar a premissa de que eles não tinham
alma. Deste modo, preferiam relembrar-se como sendo estudantes
especiais, debruçando nostalgicamente sobre os momentos em que a sua
humanidade era nítida.
No final do livro, quando Tommy e
Kathy visitam a Madame e tutora Emily, entende-se que os desenhos e
poemas produzidos teriam como finalidade a comprovação de que os clones
teriam alma, e consequentemente teriam humanidade, e como tal mereceriam
tratamento humano. No entanto, mesmo que conseguissem comprovar isto, a
professora e a Madame estavam conscientes de que não conseguiriam
alterar o destino destas crianças. Sabiam que a humanidade nunca estaria
disposta a abdicar da oportunidade de curarem doenças incuráveis. Era
aceitável criar crianças artificialmente para propósitos médicos, no
entanto a sociedade não aceitaria a criação de seres que pudessem
substituir a sua própria existência.
Em última análise, o título do livro
poderá ter vários significados, a nível mais superficial, refere-se à
música que Kathy se lembra na sua infância. Também pode ser igualmente
interpretado, de acordo com o ponto de vista da Madame, como um apelo
para que nunca se abandone a empatia e humanidade, da mesma forma que a
sociedade abandonou as crianças de Hailsham.
Assim, Nunca Me Deixes impõe ao leitor
que reflicta sobre as implicações éticas e morais da clonagem humana, e
pretende deixar o leitor decidir se é melhor evitar sentimentos
difíceis ou enfrentá-los directamente.
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