sábado, 25 de janeiro de 2020

Nunca Me Deixes, Kazuo Ishiguro




Ano: 2005

Gênero: Romance, Contemporâneo, Distopia

Outros do mesmo autor: O gigante Enterrado, Os Inconsolados, Quando Eramos Órfãos

Editora: Gradiva

Classificação: 7/10

Resumo/ Review:

Após Gigante Enterrado, fiquei rendida à forma como o autor expõe questões intrínsecas à vida, através de figuras de estilo como a personificação e a metafora. Por sua vez, Nunca Me Deixes retrata um dos problemas mais convencionais que enfrentamos como espécies de uma forma bastante misteriosa. O tema central é lentamente desvendado capítulo a capítulo, conforme a infância da personagem principal é relembrada, e até se descobrir o destino das crianças de Hailsham, o leitor tem a oportunidade de especular várias conjecturas. A escrita é bastante simples, no entanto o que distingue a escrita de Kazuo Ishiguro neste romance é a profundidade que este dá às personagens e a construção em várias camadas do romance, que desencadeia múltiplas impressões e emoções.

O livro é narrado na primeira pessoa, por Kathy uma “ajudante” de 31 anos que cuida dos “doadores”, papeis estes que desde logo intrigam o leitor, quando apresentados. Esta relata a sua infância em Hailsham e o desenvolvimento das suas relações de amizade com Ruth e Tommy. As crianças de Hailsham são retratadas como estudantes especiais, mas o que terão mesmo de especial?
Os estudantes de Hailsham são nada mais nada menos que clones, que existem apenas com único propósito, doar órgãos quando necessário, até que completem o “ciclo”. Assim, Kazuo Ishiguro pretende com esta obra, sublinhar que com o avanço tecnológico surge grandes responsabilidades. Mesmo que a clonagem seja possível, será eticamente correto? Aproveita ainda a ficção científica para ilustrar a vida humana quotidiana, explorando questões sobre a alma humana, a sexualidade, a criatividade e a inocência da infância, sugerindo que todos nós somos de certa forma clones, imitadores que adquirimos maneirismos provenientes do cinema, televisão e da própria sociedade.

A narrativa divide-se em 3 tempos distintos. Enquanto a instituição Hailsham foca-se na saúde e na valorização da arte, nomeadamente de desenhos e poemas, a Herdade representa a fase de transição entre infância e a idade adulta, onde entram em contacto com clones criados noutras instituições, cujas as condições diferem das de Hailsham. Mais tarde, antes de se tornarem doadores, passam a ser ajudantes, que cuidam dos que já se encontram no processo de doar.

A relação de Kathy, Ruth e Tommy deteoriza-se na Herdade. Depois de descobrirem os rumores referentes à possibilidade de poderem ter um adiamento das doações, Tommy agarra-se a essa nova esperança, apercebendo-se agora da importância dos desenhos, que anteriormente desvalorizou em Hailsham, e recomeça a trabalhar no sentido de obter o tal adiamento. Aqui Kazuo Ishiguro, demonstra que as pessoas acreditam naquilo que querem acreditar, e como a esperança pode moldar o julgamento de um indivíduo. Tommy partilha primeiramente esta sua teoria com Kathy, e Ruth quando descobre fica com ciúmes, pelo que ridiculariza os desenhos dele, e afirma que Kathy também os considera insignificantes. É irónico que a única ação relevante de Kathy até ao momento foi optar por iniciar o curso para se tornar ajudante, como forma de evitar resolver os problemas com Ruth e Tommy, destacando a sua atitude passiva e a sua incapacidade de tomar decisões, que sempre tivera ao longo da narrativa.

Perto do final, os 3 amigos visitam um barco abandonado, que pode ser interpretado como o símbolo dos seus passados partilhados. Ou seja, assim como a antiga escola, o barco fornece um pequeno refúgio ao oceano (mundo), onde estariam perdidos à mercê da maré. E, assim como o barco poderá ser destruído por uma tempestade, Hailsham também facilmente perdeu os financiamentos e encerrou, com a mudança da opinião pública. É apenas quando confrontam esta estrutura simbólica do passado que finalmente, Kathy, Ruth e Tommy discutem sobre a questão de serem doadores, tema este que sempre evitaram abordar. Eles sempre viveram controlados e com o destino traçado, e sempre souberam dessa triste realidade, todavia todos pretendiam não vê-la. Isto porque a partir do momento em que aceitassem esta conjectura, teriam de aceitar a premissa de que eles não tinham alma. Deste modo, preferiam relembrar-se como sendo estudantes especiais, debruçando nostalgicamente sobre os momentos em que a sua humanidade era nítida.

No final do livro, quando Tommy e Kathy visitam a Madame e tutora Emily, entende-se que os desenhos e poemas produzidos teriam como finalidade a comprovação de que os clones teriam alma, e consequentemente teriam humanidade, e como tal mereceriam tratamento humano. No entanto, mesmo que conseguissem comprovar isto, a professora e a Madame estavam conscientes de que não conseguiriam alterar o destino destas crianças. Sabiam que a humanidade nunca estaria disposta a abdicar da oportunidade de curarem doenças incuráveis. Era aceitável criar crianças artificialmente para propósitos médicos, no entanto a sociedade não aceitaria a criação de seres que pudessem substituir a sua própria existência.

Em última análise, o título do livro poderá ter vários significados, a nível mais superficial, refere-se à música que Kathy se lembra na sua infância. Também pode ser igualmente interpretado, de acordo com o ponto de vista da Madame, como um apelo para que nunca se abandone a empatia e humanidade, da mesma forma que a sociedade abandonou as crianças de Hailsham.

Assim, Nunca Me Deixes impõe ao leitor que reflicta sobre as implicações éticas e morais da clonagem humana, e pretende deixar o leitor decidir se é melhor evitar sentimentos difíceis ou enfrentá-los directamente. 

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